Mbaraká e sua curandeira, por V. M. Gonçalves

[Vilson n’A Cripta] Contos em série – Seres das Sombras 5

Oi, pessoal! Hoje é terça-feira, então tem mais um pouquinho de Mbaraká no The Nerd Bubble o/ O capítulo de hoje de Seres das Sombras é curtinho, mas beeem significativo (e um tanto hot – estejam avisados!).
Se tu estás chegando agora, confira aqui o comecinho da saga escrita por V. M. Gonçalves:

 Capítulo V: Decisão

Mbaraká estava com sede. Sua garganta ardia, assim como suas narinas, como todo o seu corpo. O mundo estava aberto para ela: cada pássaro que batia suas asas, cada galho que crescia a um ritmo quase imperceptível fazia sua pele vibrar. O mundo inteiro a acariciava. Uma carícia intensa, a carícia de um amante que queria entrar nela sem jamais a abandonar.

Ela acolheu o bárbaro dentro de si como se ele fosse a resposta para toda aquela sede. Seu corpo forte e coberto de cicatrizes era desagradável a princípio, tão diferente dos corpos gentis e quase sempre rechonchudos dos rapazes abayuká, perfumados com menta e suavizados com óleo de palmeira. Mas logo o corpo feio e áspero não importava mais que todas as sensações contidas nele. Suas memórias. Seus conhecimentos. Sua história.

Tudo agora era dela.

Mbaraká mordeu suas orelhas, beijou com fervor toda a pele tatuada, deixou que ele beijasse seus seios, ansiosa por captar as histórias guardadas em cada estímulo. Acariciou as cicatrizes no peito robusto e nos seus braços e conhecia
a história de cada uma, as adquiridas em combate e as que infligira contra si mesmo, a fim de derramar sangue para honrar a algum deus: das orelhas para EkalKataq; da língua para TaalKan, das mãos para TzotzKan, do pênis para
Itzimn.

— Eu me vou para EkalKataq — disse ele enquanto ela se perdia em todas aquelas sensações efusivas, seu corpo se desfazendo no prazer mais intenso que já sentira. Sua voz era quase triste, embora a fala fosse cortada por gemidos de deleite. — Mas carrega minha essência contigo. Você é especial, maaq’chan. Por isso TaalKan te escolheu. Por isso que ele voltará a aparecer para você.

Mbaraká sorriu maliciosamente.

— Você não sabia como encontrá-lo, não é? — disse, cravando suas unhas no peito do bárbaro. — Me levou nessa viagem apenas para deitar se comigo, seu cretino.

Ele sorriu da mesma forma.

— Nós tuylum dizemos que há sempre um inimigo que te possui, e é dele a dádiva de possuir tudo que um dia foi seu. É uma honra ter sido feito seu em combate, Mbaraká. É uma honra ser seu antes de morrer. Esse é o ritual. Tudo que um dia fui, será seu a partir de agora.

Quando ele atingiu o êxtase, Mbaraká sentiu o seu prazer e o dele. Sentiu também toda a saudade que o bárbaro sentiria do mundo dos vivos e a ansiedade dele em ser uma estrela no corpo celeste daquele estranho deus. O arroubo de sensações a derrubou do delírio, e a escuridão tomou conta de tudo.

 ***

— Acorde, menina, vamos. — disse a curandeira, chacoalhando a jovem.

Mbaraká abriu os olhos. Mesmo a luz tímida dentro da cabana era ofensiva aos olhos. Sentia-se pálida. Sentia-se magra. Sentia-se mais cabeluda do que nunca. Seus dentes doíam. Cada pequena nuance de emoção na voz da curandeira era perceptível. A mulher estava preocupada.

— Quanto tempo eu…?

— Dez e dez dias — respondeu a curandeira. — Há dez e dez dias eu consigo te acordar o bastante para empurrar um pouco de mingau na sua garganta e você volta a desmaiar e tremelica a noite toda. E acorda toda melada.

Mbaraká viu que a mulher acabara de banhá-la com um pano molhado. Se encolheu de vergonha, mas logo se aprumou, sentando com a coluna ereta. Parecia que podia ouvir suas vértebras e costelas se alinhando.

— E o mais engraçado — disse a mulher, acendendo seu cachimbo enquanto se arrumava em sua banqueta — É que o seu prisioneiro também amanhece todo gozado e passa a maior parte do tempo dormindo. Pelo menos ele está engordando como deve. O que é bom, porque as primeiras convidadas já começaram a chegar para o festim.

Mbaraká tentou assimilar tudo aquilo. O inimigo se convertera em prisioneiro, depois em guia, depois em amante. Agora seria apenas carne.

— Você sabe? — perguntou ela.

— Já havia ouvido histórias sobre isso antes — respondeu a mulher mais velha. — Muitas curandeiras receberam desta forma o chamado. Minha mãe me confessou que foi assim que o dom da cura entrou em nossa família, quando ela fez um prisioneiro das árvores. Muitas cantoras também receberam assim seu dom. Parece estranho, mas às vezes as deusas usam estes vermes em forma de homem como ferramentas para chegar a nós. Você sempre teve uma voz boa. Isso também deve ser um sinal.

Mbaraká e sua curandeira, por V. M. Gonçalves
Mbaraká engoliu em seco. Ser curandeira de uma aldeia era a mais alta honra abayuká, mais até que ser líder na guerra. Ser cantora e mensageira da voz também era uma honra, mas muito mais cara, que significava abandonar sua aldeia e sua identidade e vagar pelo mundo trazendo notícias e música sagrada a quem quer que fosse, onde quer que fosse, sem jamais ter um marido, uma despensa cheia ou uma casa onde pudesse descansar ao final de cada dia.

— Você parece compreender o significado de tudo, minha jovem. Você sempre foi bem madura para sua idade. É uma pena que precise ir. Mas as deusas sabem o que fazem.

A curandeira deixou-a sozinha na cabana. Sozinha, mas na companhia de uma multidão de ideias.

 ***

Na noite do festim, Mbaraká decorada com as plumagens e pinturas de uma guerreira foi até o abrigo do prisioneiro e, como prometera, ajudou-o a dar sangue a seus deuses. Atravessou com um espinho suas orelhas, sua língua, seus dedos e seu pênis. Ele não pareceu sentir nada. Convertera-se completamente em carne. Ela sentiu todas as dores que ele teria sentido. Tudo que ele um dia fora, agora estava nela.

Os convidados ficaram confusos quando o prisioneiro anunciado não foi trazido à praça onde a fogueira fora preparada. As guerreiras foram até o abrigo e o encontraram, mas não viram Mbaraká. Alguém notou que a casa das flautas estava aberta e uma das flautas sagradas fora tirada dali.

A curandeira sorriu. Mbaraká ia cumprir seu destino.

  Continua…

 

About Camila Villalba

Nerd, professora, escritora, preparadora textual, tradutora e humana da Shadow e da Snow. Viciada em histórias, livros, séries, filmes, fantasia, terror e zumbis. Fundadora The Nerd Bubble, que tornou-se A Cripta Nerd depois de dois anos de vida.

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