Diabretes de fogo, por Vilson Gonçalves

[Vilson n’A Cripta] Contos em série – Seres das Sombras 4

Oi, pessoal! Aqui estou para trazer mais um capítulo da série Seres das Sombras, com mais lutas e aventuras de Mbaraká.

Se tu estás chegando agora, confira aqui o comecinho dessa saga:
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Capítulo IV: A Mãe das Canções

O muriqui conduziu Mbaraká pelas trevas, saltando e cantarolando. A música fluía diretamente para ela, dando a seus membros a força para saltar e correr pelos galhos. Mbaraká se sentiu como uma criança novamente. Seu corpo se tornara inacreditavelmente leve, como se fosse feita de música em vez de carne e ossos.

Havia uma respiração nas trevas. Uma única respiração. Todas as plantas, animais e rochas suspiravam em uníssono, como se todos os sons do mundo houvessem sido reduzidos a uma cadeia ritmada de gemidos sensuais.

Logo Mbaraká começou a se lembrar de todas as canções que conhecia, como se pudesse entoá-las em uma única linha, da mais jovem à mais antiga: A Destruição de Itatinga, A Guerra das Irmãs, Pindá e O Velho Rei, Piragué, Itaybotira e Os Demônios, As Cabeças de Pano, Além do Rio, A Punição dos Homens, O Roubo das Flautas, A Aurora, A Origem da Noite, A Praga do Desejo, Sol e Lua. À medida que seguia pelas trevas, porém, o peso de todo o conhecimento contido naquelas cantigas começou a devolver a substância a seus membros, tornando-a pesada de novo.

E Mbaraká caiu.

Abriu os olhos e se esforçou para distinguir alguma silhueta, mas nada havia, apenas escuridão. Ouviu o crepitar de uma chama. Sentiu calor, mas não viu iluminação alguma.

— Que fogo que queima sem acender? — disse a si mesma.

O crepitar começou a lembrar outro ruído: risos. Então seis luzes tímidas se acenderam: dois pares de olhos, duas bocas.

— Não gostamos de gente por aqui, não é mesmo, Tchíu?

— Nem um pouco, Shkói, nem um pouquinho, não senhor. Eles suam e fedem.

— E fazem outras coisas fedidas também. Vamos matá-la?

— Matá-la? Não parece mulher para mim.

— Não tem saco. É uma pena, eu gosto de queimar o saco antes de queimar as outras partes.

— Podemos nos divertir de outras maneiras.

As duas bocas flamejantes se arreganharam em sorrisos sinistros e Mbaraká viu que as chamas saltitavam ao seu redor. Dois pequenos corpos se lançarem sobre ela. Pequenos braços amadeirados apertaram seu pescoço e um pé amadeirado chutando e pisando, tentando se forçar entre suas pernas. Um cheiro forte de enxofre tomava conta do ar. Calor emanava dos pequenos inimigos, como se fossem feitos de carvão vivo. A música em sua cabeça só dizia uma coisa: “lute, lute, lute”. Lançou murros para todos os lados e queimaduras leves brotaram em seus punhos, mas começou a ouvir o som de madeira estalando e gritos estridentes de dor.

Diabretes de fogo, por Vilson Gonçalves
  Diabretes de fogo, por V. M. Gonçalves

— Abra logo as pernas dela, seu inútil! Ela está me machucando!

— Não consigo! Ela é muito grande!

— Aaaagh!

Desprezando o calor abrasador, ela agarrou os bracinhos que a sufocavam e os afastou. A criatura berrou novamente.

— Vamos, Tchíu, seu monte de bosta queimada!

— Estou tentando! Estou tentando! Aagh! — O diabrete recuou ao receber um chute no rosto. O ruído de madeira se rachando e um pequeno jato de sangue flamejante escorreu de sua boca.

Mbaraká continuou afastando os braços do outro inimigo. Ele começou a chorar enquanto seus ombros estalavam.

— Por favor — disse ele. — Me deixe ir! Não vamos te machucar!

Mbaraká soltou um riso abafado pelo rosto contorcido. A xamã da aldeia sempre dizia: “Se algum dia encontrar um espírito mau, não ouça o que ele tem a dizer, especialmente se for uma súplica.”

E ela desprezou todas as súplicas, e impôs tamanha força sobre os braços de madeira queimada que eles racharam e se abriram. Um dos membros se soltou completamente do corpo, em vários pedaços. A criatura sangrou labaredas, queimando seu rosto e seus ombros, mas ela desprezou o dano com um grito, satisfeita com o lamento de dor sobrenatural que a criatura emitiu. O ser cambaleou para trás, enquanto o outro saltou do chão, ainda tentando colocar um pedaço da boca de volta no lugar.

Vofê maffucou o Ffkói, fua anta go’da! Vou te quema’ te tent’o p’a fo’a!

Mbaraká riu da ameaça e esperou um novo chute, então agarrou-se à perna e trouxe o inimigo ao chão. Puxou-o para si e esmurrou seu rosto de madeira queimada. Ouviu mais súplicas, mas esmurrou até partir sua cara. Agora que Tchíu não se movia mais, notou que sua mão estava descascada, coberta de feridas, bolhas e lascas de madeira. Depois do triunfo sentiu dor, depois raiva.

Pouco a pouco, seus olhos se tornaram capazes de ver luzes sutis: os olhos e a boca flamejantes de Shkói. Ainda vivo, mas sem os braços, saltava de um lado para o outro, choramingando.

— Você matou o Tchíu! Vou te matar a chutes, anta gorda!

Mbaraká começou a caminhar na direção da aparição.

— Não se eu te matar antes, coisa de fogo — disse ela.

O ser tropeçou a caiu de costas na poeira. Incapaz de se levantar agilmente, nada pode fazer quando ela pôs o pé sobre seu peito. Lágrimas brotaram dos olhos da jovem. A pele amadeirada crestou seu pé, mas a raiva era maior que a dor.

— Você me vê! Maldição! Você me vê! Desculpe, nunca quis chamá-la de anta gorda.

— Já tirei seus braços, coisa de fogo. Me ajude a sair daqui — disse ela. — E prometo não arrancar sua perna.

A escuridão se rompeu com um estrondo e Mbaraká caiu novamente. Estava novamente diante da grande árvore. Apalpou o pescoço, olhou as mãos e os pés: sentia ainda todas as dores, mas não viu sinal de queimadura. Olhou ao redor em busca do bárbaro cativo, mas não o encontrou.

— Eu te trouxe de volta, agora posso ir embora?

Ela viu que o diabrete sem braços a acompanhara.

— Não preciso mais de você — disse ela.

— Por favor, então, me mande embora — respondeu Shkói, soltando lágrimas de fogo líquido e sangrando a mesma substância por todos os buracos.

— Vá embora.

O diabrete pareceu aliviado. Seu corpo amadeirado tornou-se gradativamente cinza, depois esbranquiçado. Seu fogo interior enfraqueceu até apagar. O vento começou a desfazer seu corpo, espalhando borralho por toda a parte. Um pouco da cinza avançou até Mbaraká, como se o espírito mau ainda estivesse vivo, entrando em suas narinas. Aquilo foi como um soco no rosto. Filetes de sangue minaram de seu nariz, seus olhos se dilataram e ela caiu de costas novamente e convulsionou no chão da floresta.

Sua mente alçou voo. A realidade, que já parecia frágil, desfazia-se em camadas, como peixe cozido. O muriqui desaparecera. O bárbaro cativo desaparecera. A árvore desaparecera. O diabrete desaparecera. Até mesmo ela desaparecera. Restava apenas a música, cada vez mais complexa, com o som de dez mil vozes, mil flautas de todos os tamanhos, quinhentos maracás e uma centena de tambores.

Mais do que isso, Mbaraká não sentia mais a música: ela era a música. Ao aspirar a cinza do espírito mau, absorveu cada pedaço de conhecimento que ele herdara da árvore que o havia parido em uma noite tempestuosa, e todo o conhecimento que esta árvore extraíra da terra com suas raízes. Todo este conhecimento, porém, era como uma coleção de pedacinhos de um jarro muito grande e decorado com um desenho complexo. Para ver o desenho, seria necessário organizar e reunir os fragmentos, e ela não tinha como fazer isso, não naquele instante.

Mbaraká era a música da vida agora, uma música alegre, e sentia seus sentidos se abrindo para uma miríade de sons, cheiros, sabores e toques. Viu Mãe Kuaracy e Mãe Yacy se amando e se separando, criando o dia e a noite. Viu as plantas e os animais povoando a Terra. Viu as pessoas emergirem dos troncos esculpidos por Kuaracy. Viu a primeira luz sobre a grande planície de Araretama sobre a qual falava a Canção da Aurora, e viu os homens tocando as flautas sagradas do Espírito do Desejo, usando sua música para submeter as mulheres à sua vontade. Depois disso, viu quando eles dormiram sob o efeito da magia de Yacy e a Grande Mãe Cy veio para puni-los por seus crimes.

— Vocês usaram o poder de um deus para subjugar — disse a semideusa. — Como punição, vocês serão subjugados.

Um dos homens chorou por misericórdia enquanto a Grande Mãe o puxava pelos cabelos e corria o machado lunar através de sua carne, maculando o solo de Araretama com sangue rebelde. Ao homem não foi permitido morrer até que a semideusa lhe causasse todas as dores possíveis.

— Que essa seja a punição de todos os homens que tentarem tocar as flautas — disse ela. — Agora esta terra está manchada. Precisamos partir para um novo lugar, para um novo começo.

Mbaraká viu suas ancestrais atravessando o grande rio, então a música começou a parar aos poucos, e toda a visão foi bloqueada por muitos véus de trevas. Ela despertou diante da grande árvore novamente, com uma multidão de muriquis cantarolando a Mãe das Canções no dossel do arvoredo, enquanto ela jazia deitada sobre o corpo do bárbaro cativo, envolvendo-o em seus braços e suas pernas.

 

Continua…

About Camila Villalba

Nerd, professora, escritora, preparadora textual, tradutora e humana da Shadow e da Snow. Viciada em histórias, livros, séries, filmes, fantasia, terror e zumbis. Fundadora The Nerd Bubble, que tornou-se A Cripta Nerd depois de dois anos de vida.

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