o caminho do louco, capa completa

[Resenha] O Caminho do Louco – Alex Mandarino

Oi, pessoal! Vamos começar as resenhas de 2018? Boa parte dessas serão de livros lidos em 2017 (ou mesmo 2016), cujas análises estão atrasadas por pura procrastinação dessa que vos escrever. Mas são livros incríveis que merecem ter suas resenhas postadas everywhere, inclusive aqui, n’A Cripta.
Para começar e estrear o novo layout das resenhas, nada mais justo que o melhor livro que eu li em 2017: O Caminho do Louco, escrito por Alex Mandarino e com Artur Vecchi como editor.

 

Capa

capa - frente - O Caminho do Louco
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Com poucas mas chamativas cores e uma fonte que combina com o anárquico Louco, a capa deste livro ainda mostra um andarilho e um cachorro na estrada. Mais apropriado impossível

Diagramação

amostra da diagramação

Folhas grossas e levemente amareladas, uma fonte agradável e ilustrações dos personagens do Tarô e um fundo com imagem de carta no começo de cada capítulo. Belo trabalho de Vitor Coelho

Revisão

carta d'O Louco
 O Louco – Arte: Fred Rubim | Projeto gráfico: Vitor Coelho

Ao contrário de quase todos os livros que tenho lido, não encontrei nenhum erro aqui. Esse é mais um dos motivos para a AVEC ser minha editora favorita – além do ótimo trabalho com a parte visual do livro, a edição também é impecável. Ok, para não dizer que foi perfeito, faltaram um ou dois travessões em diálogos. Mas foi só isso mesmo. Parabéns à Miriam Machado.

Confira: O que é um livro um clássico?, por Giselle Jacques

Escrita

tarô - o mago
O Mago – Arte: Fred Rubim  | Projeto gráfico: Vitor Coelho

Alex passa magistralmente da narração em primeira pessoa para terceira, com breves incursões pela segunda também, sendo capaz de marcar com precisão as diferenças entre cada voz narrativa e personagem em foco.
Outra coisa que amei no livro foi o habilidoso uso de diversas culturas e religiões, passando pelos indígenas da Amazônia, Vudu (❤), divindades celtas e indianas, cristianismo, além de recortes de várias linhas de pensamento filosófico e social.
Além de uma técnica linda, cada aspecto do enredo se encaixa perfeitamente na metáfora/crítica social à estagnação e passividade da humanidade – talvez nem tudo tenha sido intencional (o que eu duvido), mas depois de pegar as primeiras pinceladas de crítica, impossível não vê-las em todos os lugares. Foram tantos diálogos e passagem que exemplificam a inteligência do autor – e sua sensibilidade e conhecimento – que o livro está recheado de post-its.
Não me importa em absoluto, mas acho que vale mencionar que aparecem palavrões no livro. Eu acho que isso só acrescenta naturalidade à narrativa, mas tem gente que não simpatiza muito, né? Melhor avisar.

Confira: Resenha – A Lição de Anatomia do Temível Doutor Louison

Enredo

a sacerdotisa - tarô
A Sacerdotisa – Arte: Fred Rubim | Projeto gráfico: Vitor Coelho

A história segue vários personagens, com tramas que se interligam e influenciam. Não há dúvidas, no entanto, que o protagonista é André Moire, um jornalista carioca que nos conta em primeira pessoa como, num dia normal, ele decide deixar para trás sua vida ordinária e previsível e se coloca na estrada, disposto a conhecer o mundo, pessoas e, quem sabe, a si mesmo. Antes de ter essa epifania e sair por aí, ele encontra um pedaço de papel na rua, que recolhe por instinto; esse papel, na verdade uma carta de tarô, marca o início de sua jornada e seu despertar como Louco.
Partindo sozinho em viagens nem tão ortodoxas e servindo-se de algumas substâncias psicoativas, o tarô e um cão começam a dominar-lhe os sonhos, as viagens sob efeito alucinógeno e os pensamentos sóbrios. As respostas começam a chegar quando o Mago/Bagatto/François o interpela e finalmente tira algumas de suas dúvidas sobre o Louco, o Tarô, magia e seu papel em tudo isso. É dada a André a escolha de percorrer ou não o Caminho do Louco do título, e assumir seu lugar dentro da “instituição” chamada O Tarô, que é formada pelos Arcanos Maiores e numerosos Arcanos Menores espalhados pelo mundo.

a sacerdotisa - tarô
A Imperatriz – Arte: Fred Rubim | Projeto gráfico: Vitor Coelho

Como vocês podem imaginar, André cede à curiosidade e decide trilhar tal caminho, o que implica visitar cada um dos Arcanos Maiores em suas casas e aprender com eles mais sobre tudo e sobre si. Começamos com os quatro primeiros arcanos: o Mago, a Sacerdotisa, a Imperatriz e o Imperador. Tanto ele quanto nós, leitores, somos apresentados a outros arcanos porque algo grande está se desenrolando, envolvendo O Tarô e seus inimigos.
Essa guerra nos é contada em 3ª pessoa e no ponto de vista de vários personagens, desde outros arcanos até os vilões (que são outra criação bem inteligente de Alex), passando por alguns religiosos e o policial Ciaran, que há anos tenta descobrir o que raios é esse tal de tarô.
A maneira como essas histórias se ligam vai se tornando mais clara com o virar das páginas e a trama se desvela aos nossos olhos graças a essa variedade ímpar de pontos de vista, misturando magia e realidade, comentários sociais e um bocado de ação.

Confira: Um pouco de terror no mundo dos mangás, por Jéssica Albino

 

Personagens

imperador - tarô
O Imperador – Arte: Fred Rubim | Projeto gráfico: Vitor Coelho

Vou começar dizendo que meus favoritos são muitos, mas a melhor narração é a de um corvo, justamente no presente, que não é algo que eu normalmente goste. Sim, é um corvo narrando mesmo, tu leste bem. Não vou entrar em detalhes, porque isso acontece no finalzinho do livro, mas é fato: o corvo é o melhor.
Além desse amiguinho de penas, não tem como não gostar dos arcanos que nos são apresentados. Sério mesmo. Estou tentando encontrar algum personagem que eu não tenha gostado, mas são todos tão distintos, inteligentes e memoráveis que não há como escolher outro favorito. Se forçada, teria que citar o Mago, a Sacerdotisa, o Carro e nosso querido Louco, André.
O Mago e a Sacerdotisa são os dois arcanos mais próximos da magia em si, embora todos os Arcanos Maiores tenham seus poderes especiais, incluindo o Louco, que só os receberá ao fim de sua visita ao Imperador. Enfim… os dois são ainda os que mais explicam o mundo do Tarô para André (e para nós), então são os que ganharam meu coração de cara. O Mago com o vudu e a Sacerdotisa com Epona e Ganesh (e outros) são os arcanos que eu queria trazer para um chá na minha casa.
O Carro é… bem, estranho. Sua narração em 2ª pessoa é muito interessante também, especialmente porque não é algo que se leia todos os dias.
André Moire é quem acompanhamos mais de perto, é claro. Ele não é um “mocinho” típico, com a sombra da loucura guiando seus passos, uma certa queda por alucinógenos e pouco ceticismo ante a revelação do seu novo caminho. Ele é essencialmente bondoso e inteligente, o que torna ainda mais fácil gostar dele.

Resumindo…

Se tu chegaste até aqui, minha indicação não pode ser mais óbvia: leia O Caminho do Louco o quanto antes! Não foi à toa que um monte de gente (eu, inclusive) o elegeu como melhor livro lido em 2017.

About Camila Villalba

Nerd, professora, escritora, preparadora textual, tradutora e humana da Shadow e da Snow. Viciada em histórias, livros, séries, filmes, fantasia, terror e zumbis. Fundadora The Nerd Bubble, que tornou-se A Cripta Nerd depois de dois anos de vida.

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