[Resenha] A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison – Enéias Tavares

Oi, pessoal! Faz um tempão que não posto uma resenha, né? Para voltar à ativa, nada melhor que uma resenha de um livro pelo qual tenho muito carinho: A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison, de Enéias Tavares. Além de – spoiler da resenha! – contar uma ótima história, ganhei o meu exemplar em um amigo secreto no Natal de 2015 da querida escritora Jana P. Bianchi, autografado por ambos e com um conto criado por ela, mas manuscrito na bela caligrafia do Enéias. Embora eu tenha demorado até novembro de 2016 – quase um ano inteiro! – para ler o livro num evento do Vórtice Literário  (Clube do Livro do qual eu fazia parte até recentemente), estava doida para me aventurar por esse Brasil retrofuturista do Enéias há tempos… E ainda bem que embarquei nesse dirigível!

Por dentro da história

Apesar de se iniciar no Rio de Janeiro, é em uma Porto Alegre (minha cidade ^^) steampunk – com vapor e engrenagens – que a trama se desenrola, com algumas modificações que a tornam mais sombria, mas também um personagem por si só. E, para nós que conhecemos a Porto Alegre real, descobrir a Porto Alegre dos Amantes criada por Enéias é uma diversão à parte, como o bairro Menino Diabo (em oposição a “Menino Deus”) e o Bosque da Perdição (correspondente ao “Parque da Redenção”).

Bom, vamos falar da trama em si. Nesse romance steampunk, Enéias misturou personagens clássicos da literatura brasileira, como Solfieri (originalmente encontrado em Noite na Taverna de Álvares de Azevedo) e Simão Bacamarte (criado por Machado de Assis para O Alienista), com personagens originais para contar a história dos terríveis assassinatos cometido e assumidos pelo renomado Dr. Antoine Louison.

Valendo-se de vários narradores e estilos narrativos que buscam se aproximar das obras originais de onde os personagens clássicos foram retirados, Enéias nos conta sobre os eventos anteriores aos crimes, sobre o aprisionamento do respeitável e (talvez) monstruoso Dr. Louison e … bom, o que acontece com ele e com todos que o cercam.

O livro é dividido em seis partes e um epílogo, todos narrados por personagens diferentes. Começamos com Isaías Caminha (criado por Lima Barreto) nos introduzindo ao cenário e aos crimes de Louison. Caminha, como jornalista, é mandado a Porto Alegre para cobrir a prisão do ilustre médico e a repercussão das mortes de membros da alta sociedade com toques macabros.

É pelos olhos de Caminha que conhecemos os personagens envolvidos nessa história, como a bela Vitória Acauã (criada por Inglês de Souza), as ilustres cortesãs Rita Baiana, Pombinha e Léonie (criadas por Aluízio de Azevedo), donas do prostíbulo Palacete dos Prazeres, assim como os personagens originais de Enéias – Louison, sua amante Beatriz de Almeida e Souza e o investigador Britto Cândido.

Nas partes seguintes, temos variados narradores com variados pontos de vista sobre Louison e seus crimes. Temos Simão Bacamarte, diretor do Sanatório São Pedro, onde Louison fica detido, e que é mais doido que todos os pacientes que ele trata. Temos Pombinha, Léonie, Rita e Baiana, que nos trazem informações sobre a sociedade e os envolvidos com Louison, Vitória Acauã, Solfieri, Bento Alves e outros que nos ajudam a conhecer melhor o Parthenon Místico, grupo formado por intelectuais e ocultistas que, como amigos de Louison, insistem em ajudá-lo. Temos Britto Cândido e recortes do processo, que nos ajudam a entender mais sobre os crimes e as investigações… e encerramos com os melhores capítulos, narrados pelos personagens originais de Enéias que amarram todas as pontas soltas, além de nos deixar refletindo sobre o que realmente importa: o que é certo ou o que é justo?

Eu não achei pontos negativos no todo, mas alguns colegas de Vórtice acharam o começo meio arrastado, já que Caminha é um narrador descritivo e divagador… Mas meu autor favorito é Tolkien, então descrições são a minha praia. A única coisa que poderia ser melhor é a capa: embora seja lindona, não condiz tanto com a história.

Ah! Gostei muito também do vocabulário do autor e de algumas palavras terem uma grafia antiga, como a troca de f por ph – como em graphia –, assim como os diferentes estilos de escrita que já citei antes. Valendo-se de noitários, transcrições, relatos e excertos de processos acho que Enéias conseguiu mostrar bem o seu talento e contar uma baita história de amor e crime, com ação, um fundo de ficção científica e ainda um toque de sobrenatural.

dados essenciais - a lição de anatomia

Skoob – Goodreads – Site da série
Onde comprar:
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O Autor

Autor de A Lição de Anatomia do Temível Dr. Lousion

Enéias Tavares, nascido em 17 de novembro de 1981, especializou-se nos livros iluminados do inglês William Blake e tornou-se professor de Literatura Clássica na Universidade Federal de Santa Maria. Assumiu a condição de escritor após seu primeiro livro – A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison – vencer o concurso do selo Fantasy (editora Casa da Palavra) e, assim, ser publicado com a curadoria de Affonso Solano (autor de O Espadachim de Carvão).
Além do livro aqui resenhado e alguns contos dentro da série Brasiliana Steampunk, Enéias também é parcialmente responsável por A Alcova da Morte – primeiro volume na série escrita com A. Z. Cordenonsi e Nikelen Witter, publicada este ano pela editora AVEC – e Sussurros da Boca do Monte – coletânea sobre a cidade de Santa Maria. Como se isso não fosse o bastante, ele também é sócio do Grupo Epic e coordenador do projeto (divo) Bestiário Criativo.

About Camila Villalba

Nerd, professora, escritora, preparadora textual, tradutora e humana da Shadow e da Snow. Viciada em histórias, livros, séries, filmes, fantasia, terror e zumbis. Fundadora The Nerd Bubble, que tornou-se A Cripta Nerd depois de dois anos de vida.

9 thoughts on “[Resenha] A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison – Enéias Tavares

  1. EU QUERO!!! Acho a temática steampunk muuuito legal e, quando soube que o livro era em Porto Alegre (onde moro também!), me ganhou <3 Também fiquei mega interessada por essa mistura de personagens, me lembrou algo tipo a liga extraordinária heuiheue Gostei de toda a atmosfera do livro, na verdade, é um livro que eu compraria ou gostaria de ganhar (:

  2. Um Steampunk nacional, é isso mesmo? Que demais!
    Adorei a proposta de misturar personagens reais com fictícios, mostra que o autor pesquisou antes de escrever, amo isso.

    E nem vou mentir, adorei que tem uma personagem com meu nome. HAHAHA

    Assim que terminei de ler sua resenha fui atrás do livro e descobri que ele está grátis para assinantes do Kindle Unlimited, lógico que já baixei. hahaha

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